Verticalização do nascimento: continuidade histórica, rupturas tecnológicas e evidências atuais

Resumo

O parto em posição vertical — incluindo o parto de cócoras — constitui uma prática ancestral presente em múltiplas culturas e materializada em artefatos obstétricos históricos (cadeiras, bancos e “tijolos de parto”). A consolidação hospitalar do parto em decúbito dorsal/litotomia, sobretudo a partir da modernização biomédica, não elimina a relevância fisiológica da gravidade e da mobilidade pélvica, hoje revalorizadas em modelos de cuidado centrados na mulher. Evidências contemporâneas sugerem benefícios potenciais de posições verticais no segundo estágio do parto para mulheres sem analgesia neuroaxial, com ressalvas quanto a heterogeneidade metodológica e desfechos como perda sanguínea. Diretrizes internacionais reforçam o direito de escolha informada da posição de parto, incluindo posições verticalizadas, integrando segurança clínica e protagonismo materno.

Palavras-chave: parto vertical; parto de cócoras; segundo estágio; humanização; evidência; história da obstetrícia.


1. Introdução

A posição materna no parto não é mero “detalhe postural”: ela altera vetores mecânicos (gravidade), geometria pélvica funcional, recrutamento muscular e a dinâmica entre feto, canal de parto e tecidos perineais. A discussão contemporânea sobre verticalização do parto — frequentemente associada ao “parto de cócoras” — deve ser compreendida como interseção entre:

  1. memória cultural do nascimento; 2) transformações tecnológicas e institucionais da obstetrícia; e 3) hierarquia moderna da evidência, que busca comparar desfechos maternos e neonatais entre posições.

2. Histórico ancestral: do gesto fisiológico aos artefatos do nascimento

2.1 Antiguidade: gravidade, apoio e ritual

Registros arqueológicos e historiográficos descrevem o uso de posições verticalizadas e dispositivos de apoio (bancos/cadeiras) como soluções práticas: elevam a parturiente, ampliam conforto, favorecem assistência e preservam o vetor gravitacional. Uma síntese histórica ilustrada destaca a presença de “birthing chairs” e “birthing stools” em contextos muito antigos, citando tradições que remontam à Mesopotâmia e ao Egito, além de representações em relevos e objetos votivos mediterrâneos.

No Egito, por exemplo, o achado de “birth bricks” (tijolos de parto) reforça a ideia de que o nascimento podia ocorrer com a mulher apoiada/erguida, em ambiente doméstico-ritual, com objetos que sustentavam postura e simbolismo de proteção. (A imagem do “birth brick” é útil como marcador material dessa cultura de verticalidade.)



Figura 1 — “Birth brick” (Egito Antigo): evidência material de dispositivos associados ao ambiente e à postura do parto. Fonte/Crédito conforme acervo/pesquisadores.


2.2 Idade Média e início da Modernidade: o parto como evento feminino e comunitário

Na Europa medieval, iconografias e relatos indicam o parto frequentemente como evento doméstico, conduzido por mulheres (parteiras, comadres), com a parturiente sentada, semi-sentada ou verticalizada em bancos/cadeiras de parto, enquanto a assistência se organizava ao redor. Imagens históricas de “birth chair”/cena de parto medieval são úteis para ilustrar essa organização espacial e a centralidade da mulher em posição não-supina.



Figura 2 — Cena de parto em xilogravura medieval: representação do parto em ambiente doméstico e organização do cuidado.


2.3 Séculos XVII–XX: a virada institucional e a padronização do decúbito dorsal

Com a progressiva medicalização do parto, a introdução de instrumentos, anestesia e a mudança do parto para o ambiente hospitalar, consolidou-se a preferência institucional por posições supinas (decúbito dorsal/litotomia), em grande parte por conveniência técnica do operador e padronização de procedimentos. Revisões históricas sobre “birthing furniture” descrevem a transição: apesar da longa tradição de dispositivos para posições eretas, o padrão biomédico hospitalar favoreceu modelos que “fixam” o corpo na cama e facilitam intervenções.




Figura 3 — Cadeira/assento obstétrico histórico (acervo museológico): mostra como a verticalidade foi “tecnologizada” em mobiliário específico, antes da hegemonia da cama obstétrica moderna.


3. Revalorização contemporânea: evidência, diretrizes e fisiologia aplicada

3.1 O que a melhor evidência sugere

Uma revisão sistemática de referência (Cochrane) avaliou posições verticalizadas no segundo estágio em mulheres sem analgesia epidural, encontrando possíveis benefícios (por exemplo, redução pequena do tempo de puxos), mas também sinalizando potencial aumento de perda sanguínea e limitações metodológicas/heterogeneidade entre estudos — motivo pelo qual recomenda cautela na interpretação e, sobretudo, individualização.

Em termos clínicos, isso costuma ser lido assim:

  • Verticalizar pode ajudar quando a parturiente deseja mobilidade, sente melhor coordenação do esforço expulsivo e se beneficia do efeito gravitacional;
  • Não é “superior” em todas as situações, pois analgesia, fadiga, monitorização, progressão fetal e risco hemorrágico modulam a escolha.

3.2 Diretrizes: escolha informada e cuidado centrado na mulher

As recomendações da OMS para cuidado intraparto enfatizam o protagonismo e a experiência positiva, incluindo encorajar a mulher a adotar posição de sua escolha, inclusive posições verticalizadas (com menção explícita mesmo em contexto de analgesia epidural).

Esse ponto é decisivo do ponto de vista bioético e assistencial: a diretriz não “impõe” uma posição, mas recoloca a decisão no corpo da mulher, desde que haja segurança clínica.

3.3 Fisiologia prática do parto de cócoras

O parto de cócoras (com ou sem suporte) combina três elementos:

  1. Gravidade: vetor que favorece descida fetal quando a dinâmica uterina está eficaz;
  2. Liberação pélvica funcional: em muitas mulheres, a postura altera o alinhamento lombo-pélvico e pode favorecer rotações;
  3. Recrutamento muscular e propriocepção: a mulher sente melhor “direção” do esforço, o que pode reduzir puxos dirigidos inadequados.

Pontos de atenção (assistência segura):

  • Cansaço e tremor de membros inferiores → preferir cócoras assistida (banquinho, barra, acompanhante) ou alternância com ajoelhada/quatro apoios;
  • Situações que exigem manobras específicas, instrumentação ou restrições de mobilidade → adaptar posição sem “prender” a mulher em litotomia por padrão;
  • Períneo: verticalidade não elimina lacerações; prevenção exige técnica de proteção perineal, comunicação e progressão controlada do desprendimento.



    • Figura 4 — Ilustração de cócoras assistida: recurso didático para explicar variações (cócoras com cadeira/apoio/banquinho).

3.4 Contribuições referenciais contemporâneas: Moisés Paciornik e Michel Odent

3.4.1 Moisés Paciornik e o resgate biomecânico do parto de cócoras no Brasil

O médico obstetra brasileiro Moisés Paciornik (1914–2012) ocupa lugar central na revalorização científica do parto de cócoras no século XX. Atuando no Paraná, Paciornik observou sistematicamente práticas tradicionais de parto entre populações indígenas Kaingang e Guarani, nas quais a posição vertical — especialmente a cócoras — era predominante e associada a menores taxas de intervenções, sofrimento materno e complicações perineais.

A partir dessas observações etnográfico-clínicas, Paciornik desenvolveu uma fundamentação biomecânica para o parto de cócoras, destacando que:

  • a flexão coxofemoral amplia o diâmetro ântero-posterior da pelve funcional;
  • a posição favorece a retificação do canal de parto, reduzindo a oposição lombo-sacra;
  • há melhor sincronia entre contrações uterinas e esforço expulsivo materno;
  • a gravidade atua como vetor fisiológico auxiliar, e não como elemento neutro.

Como desdobramento prático, Paciornik idealizou e difundiu a cadeira de parto vertical, também conhecida como banquinho de parto, amplamente utilizada em experiências de parto humanizado no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980. Sua obra questiona frontalmente o paradigma do parto em litotomia, que ele considerava iatrogênico do ponto de vista biomecânico, ao reduzir a mobilidade pélvica e submeter a mulher a um papel passivo.

Paciornik foi, portanto, pioneiro ao integrar observação antropológica, fisiologia obstétrica e crítica institucional, antecipando conceitos hoje consolidados na assistência baseada em evidências e nos modelos de cuidado centrado na mulher.


3.4.2 Michel Odent e a fisiologia neuroendócrina do parto vertical

Na França, o obstetra Michel Odent ampliou a discussão sobre posições de parto ao introduzir uma abordagem neurofisiológica e neuroendócrina do nascimento. Diferentemente de uma defesa puramente postural, Odent argumenta que a posição adotada no parto está intrinsecamente relacionada ao estado emocional, ambiental e instintivo da parturiente.

Odent destaca que posições verticalizadas, ajoelhadas ou de cócoras tendem a emergir espontaneamente quando a mulher se encontra em um ambiente que favorece:

  • privacidade;
  • redução de estímulos corticais (luz intensa, ruído, observação excessiva);
  • sensação de segurança e ausência de ameaça.

Nessas condições, ocorre maior liberação de ocitocina endógena, hormônio central para a progressão do trabalho de parto, bem como de endorfinas, que modulam dor e consciência. Para Odent, o parto em posição supina e sob comando externo interfere negativamente nesses mecanismos ao estimular excessivamente o neocórtex.

Assim, a defesa de posições verticalizadas em Odent não se limita à mecânica do parto, mas se insere em uma visão mais ampla do que ele denomina “fisiologia do parto mamífero”, na qual o corpo da mulher, quando não inibido, tende a escolher intuitivamente posturas que favorecem o nascimento.

Odent também associa a verticalização e a liberdade de movimento à redução de intervenções como episiotomia rotineira, uso indiscriminado de ocitocina sintética e extrações instrumentais, desde que respeitados critérios de segurança materno-fetal.


3.4.3 Convergência conceitual entre Paciornik e Odent

Embora oriundos de contextos distintos, Moisés Paciornik e Michel Odent convergem em pontos essenciais:

Dimensão

Paciornik

Odent

Ênfase principal

Biomecânica pélvica

Neuroendocrinologia do parto

Crítica central

Supremacia da litotomia

Supremacia do controle cortical

Papel da mulher

Ativa e vertical

Instintiva e auto-regulada

Parto ideal

Fisiológico, apoiado

Fisiológico, protegido

Intervenções

Excepcionais

Excepcionais

Ambos contribuem para uma mudança paradigmática: o parto deixa de ser um ato técnico executado sobre a mulher e passa a ser um processo fisiológico acompanhado com a mulher.


4. Considerações finais ampliadas

A incorporação das contribuições de Moisés Paciornik e Michel Odent consolida o parto de cócoras e a verticalização não apenas como opções posturais, mas como expressões de um modelo obstétrico baseado na fisiologia, na autonomia e na integração corpo-mente.

Do ponto de vista contemporâneo, resgatar essas contribuições significa alinhar tradição ancestral, evidência científica e ética do cuidado, permitindo que o nascimento recupere sua dimensão biológica, relacional e simbólica — sem abdicar da segurança clínica.


5. Conclusão

A verticalização do parto — e, em particular, o parto de cócoras — não é “moda recente”, mas um continuum antropológico interrompido pela padronização tecnocrática do nascimento. A obstetrícia contemporânea mais madura não escolhe entre “antigo” e “moderno”: ela reintegra a fisiologia (gravidade, mobilidade e autonomia) com vigilância clínica e critérios de segurança. À luz das evidências e diretrizes, a posição de parto deve ser tratada como decisão compartilhada, orientada por conforto, progressão, condições materno-fetais e contexto assistencial.


Imagens de Arquivo Pessoal




Referências

  • GUPTA, J. K. et al. Position in the second stage of labour for women without epidural anaesthesia. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017.
  • ODENT, Michel. Birth Reborn. London: Souvenir Press, 1984.
  • ODENT, Michel. The Scientification of Love. London: Free Association Books, 1999.
  • ODENT, Michel. Childbirth and the Future of Homo sapiens. London: Pinter & Martin, 2013.
  • PACIORNIK, Moisés. Parto de cócoras: aprenda com os índios. São Paulo: Brasiliense, 1979.
  • PACIORNIK, Moisés. O parto de cócoras. Curitiba: Editora do Autor, 1986.
  • SCIENCE MUSEUM GROUP. Parturition (birthing) chair / Parturition chair or commode (acervo digital).
  • THE MIT PRESS READER. Birthing Furniture: An Illustrated History. (Artigo online).
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO, 2018.